A vindima de 2026 começou com sinais animadores nas colinas do Monferrato e de Asti, no Piemonte, na Itália. Apesar de uma temporada marcada por condições climáticas cada vez mais variáveis, os vinhedos responderam bem e as primeiras avaliações apontam para uma colheita equilibrada, com boas perspectivas tanto em qualidade quanto em quantidade.A notícia poderia ser apenas motivo de comemoração. Entretanto, por trás das uvas que chegam sadias às cantinas, existe uma realidade econômica bem menos tranquila. A redução do consumo de vinho, a pressão sobre os preços, o aumento dos estoques e a incerteza provocada pelas mudanças climáticas estão colocando à prova a capacidade de resistência das empresas vitivinícolas.É justamente essa contradição que o Consorzio Barbera d’Asti e Vini del Monferrato quer colocar no centro do debate. Afinal, uma boa safra não garante, sozinha, a prosperidade de quem cultiva a terra. É possível colher uvas excelentes e, ainda assim, enfrentar dificuldades para vender o vinho a um preço capaz de remunerar adequadamente toda a cadeia produtiva.Para Filippo Mobrici, presidente do consórcio, a grande questão já não é apenas produzir bem, mas permitir que as empresas gerem valor e que os viticultores tenham uma renda justa, sustentável e digna. Sem essa condição, alerta, não existe futuro para a viticultura.Por isso, a entidade defende a criação dos chamados “Estados Gerais do Vinho”: uma ampla mesa de diálogo reunindo instituições, a começar pela Região Piemonte, organizações representativas, consórcios, empresas e setor de distribuição. O objetivo seria construir uma visão comum e encontrar instrumentos concretos para aumentar a competitividade das vinícolas, proteger a renda dos produtores e valorizar as denominações de origem.No centro dessa discussão está uma das uvas mais emblemáticas do norte da Itália. A Barbera nasceu e construiu sua identidade no Piemonte, especialmente entre as províncias de Asti e Alessandria. Durante séculos, foi o vinho cotidiano das famílias camponesas, presente à mesa, generoso, versátil e profundamente ligado à alimentação local.Há registros históricos de sua presença na região desde o início do século XVI. Com o tempo, a variedade se difundiu por todo o Monferrato e se tornou a uva tinta mais plantada do Piemonte. Hoje, representa aproximadamente 30% dos cerca de 43 mil hectares de vinhedos da região.Durante muito tempo, a Barbera carregou a imagem de vinho simples e popular. A partir da década de 1980, porém, uma nova geração de produtores começou a trabalhar com maior rigor nos vinhedos, controle de rendimento, escolha de parcelas mais bem expostas e técnicas de vinificação mais cuidadosas. O resultado foi uma profunda transformação qualitativa.A Barbera d’Asti conquistou a Denominação de Origem Controlada em 1970 e alcançou o nível máximo da classificação italiana, a DOCG - Denominação de Origem Controlada e Garantida - em 2008.Pelas regras da denominação, o vinho deve ser elaborado com pelo menos 90% de Barbera. Sua área de produção compreende 116 municípios da província de Asti e outros 51 da província de Alessandria, formando uma extensa paisagem de colinas, vinhedos e pequenos povoados.A principal marca da Barbera é sua acidez naturalmente elevada. É ela que dá ao vinho uma sensação de frescor, prolonga o sabor e torna a bebida especialmente gastronômica. Ao mesmo tempo, a uva apresenta boa concentração de cor, graças à riqueza de antocianinas, e uma quantidade de taninos geralmente mais moderada do que variedades como Nebbiolo e Cabernet Sauvignon.Na taça, costuma apresentar cor rubi intensa e aromas de cereja, ameixa, amora e framboesa. Dependendo do amadurecimento das uvas e do estilo adotado pelo produtor, podem surgir notas florais, balsâmicas, de especiarias e frutas mais maduras.Essa combinação entre fruta, acidez e taninos menos agressivos ajuda a explicar a versatilidade da Barbera. As versões jovens, normalmente elaboradas em tanques de aço, são frescas, diretas e fáceis de beber. Já os exemplares com passagem por madeira ganham profundidade, estrutura e aromas que podem lembrar cacau, canela, café, baunilha e alcaçuz.Na categoria Barbera d’Asti Superiore, o vinho precisa passar por um período maior de amadurecimento, incluindo pelo menos seis meses em madeira. São rótulos mais complexos, persistentes e capazes de evoluir por vários anos em garrafa.A Barbera é uma boa porta de entrada para o consumidor brasileiro que deseja conhecer melhor os tintos do Piemonte. Em comparação com o Barolo e o Barbaresco, elaborados com Nebbiolo e conhecidos pela estrutura tânica e pela necessidade de tempo para amadurecer, a Barbera costuma ser mais acessível na juventude, sem abrir mão da personalidade.Sua acidez também cria boas possibilidades à mesa. As versões mais jovens acompanham massas com molho de tomate, pizzas, embutidos, aves e carnes suínas. No Brasil, podem funcionar muito bem com linguiça assada, carne de panela e até com a gordura e a intensidade de uma feijoada. Os exemplares Superiore pedem pratos mais estruturados, como carnes assadas, caça, polenta com molhos ricos e queijos curados.O Consorzio Barbera d’Asti e Vini del Monferrato foi fundado em 1946 e hoje reúne mais de 430 empresas, responsáveis por um conjunto de 12 denominações. Seu trabalho não se limita à fiscalização e à promoção dos vinhos. A entidade também atua na defesa de uma paisagem reconhecida internacionalmente e de um modo de vida construído ao redor da vinha.Quando um viticultor abandona seu terreno, a perda não se restringe à produção de uvas. Desaparecem empregos, conhecimentos transmitidos entre gerações e parte da manutenção de uma paisagem que sustenta o turismo do vinho. No Monferrato, os produtores são também guardiões das colinas e dos pequenos vilarejos que integram uma área reconhecida pela Unesco.Essa dimensão ajuda a compreender por que a renda de quem trabalha na vinha se tornou um tema tão urgente. Preservar a sustentabilidade econômica das propriedades significa proteger não apenas uma atividade agrícola, mas também um patrimônio cultural, ambiental e turístico.O desafio é encontrar o equilíbrio entre produção e demanda. Em um momento de transformação dos hábitos de consumo, não basta colocar mais garrafas no mercado. É necessário comunicar melhor a identidade dos territórios, aproximar-se de novos públicos e mostrar por que determinados vinhos carregam um valor que vai muito além do líquido servido na taça.A vindima de 2026 oferece ao Piemonte uma perspectiva positiva. A Barbera chega às cantinas com a promessa de manter o frescor, a fruta e a identidade que a tornaram um dos símbolos da região. Mas a qualidade da safra é apenas o primeiro passo.O futuro será definido pela capacidade de converter essa qualidade em valor, garantir remuneração justa aos produtores e convencer novas gerações de que ainda vale a pena permanecer no campo. Porque preservar a Barbera e os vinhedos do Monferrato não significa apenas proteger um vinho. Significa manter vivas as pessoas, as paisagens e a cultura que existem por trás de cada garrafa.✅Para saber tudo do mundo dos famosos, siga o canal de entretenimento do R7, o portal de notícias da Record, no WhatsApp
























