Demétrio Vecchioli

Foragido após operação para prendê-lo, Milton Leite tem filhos deputados e elegeu dois vereadores para substituí-lo

Demétrio Vecchioli
17/09/2026 11:57
Reprodução
“Aposentado da vida pública” desde 2024, o ex-vereador Milton Leite (União), considerado foragido depois que a Polícia Civil não o localizou para cumprir um mandado de prisão temporária nesta quinta-feira (17/9), é tudo menos um aposentado da vida pública.
Investigado por supostamente operar empresas de ônibus controladas pelo PCC e apontado por policias militares como dono de fato da empresa Transwolf, Milton Leite comanda um império que inclui uma escola de samba, um time de futebol e influência direta em quatro mandatos legislativos.
Milton Leite foi vereador durante 27 anos, entre 1997 e 2024, e presidente da Câmara Municipal em quatro oportunidades, sendo o vereador que mais tempo ocupou ocupou de forma interina o cargo de prefeito.
Em sua última eleição, em 2020, foi o líder do ranking de gastos entre os candidatos a vereador e o segundo mais votado, com eleitores concentrada principalmente no Grajaú, na zona Sul da cidade, onde construiu seu império político.
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Teria votos mais do que suficientes para se eleger deputado federal e capital político para pleitear estar em uma chapa majoritária. Mas optou por seguir na Câmara Municipal, onde ainda é cacique, e apadrinhar os filhos, que são deputados desde 2010.
O mais velho, Milton Leite Filho, é deputado estadual há quatro mandatos, mesmo período que o mais novo, Alexandre Leite, está na Câmara dos Deputados. Na eleição deste ano, porém, houve uma inversão na chapa da família: Milton Leite concorre uma cadeira em Brasília e, Alexandre, a uma vaga na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp).
Influência na Câmara Municipal
A “aposentadoria” da vida pública, porém, também não tirou Milton Leite da Câmara dos Vereadores. Pelo contrário. Ao invés de se candidatar em 2024, ele lançou dois ex-assessores como candidatos, Silvão Leite (que não tem esse sobrenome) e Silvinho. Juntos, eles receberam R$ 6,9 milhões do diretório estadual do União (comandado por Milton Leite) para a campanha e conseguiram se eleger.
No acordo para que o União apoiasse a candidatura de Ricardo Nunes (MDB) à reeleição, ficou combinado que o União teria a presidência da Câmara. Milton Leite queria seu pupilo Silvão, mas foi convencido a esperar um ano. Topou que Ricardo Teixeira, também do seu partido, mas mais próximo a Nunes, ficasse no primeiro ano, rompendo a tradição de rodízio a cada dois anos.
Quando foi exigir o cumprimento do acordo para 2026, com Silvão chegando à presidência, acabou preterido – os vereadores da base se uniram em apoio à reeleição de Teixeira.
A influência de Milton Leite, porém, vai muito além das casas legislativas. Driblando uma tradição de que, em São Paulo as relações entre políticos e “patronos” com escolas de samba é muito menos explícita do que no Rio, nunca escondeu que controla a Estrela do Terceiro Milênio, na qual é presidente de honra.
A escola de samba do Grajaú teve uma ascensão meteórica desde 2016, quando ganhou a quarta divisão. Foi campeã da terceira (acesso 2) em 2019, terceira colocada na difícil divisão de acesso paulistana em 2020 e ganhou na volta pós-pandemia, em 2022, com um desfile com custos de escola de elite.
Ficou só um ano no Grupo Especial, caiu, mas voltou logo na sequência, para dois carnavais entre as oito primeiras, algo incomum para quem vem do acesso. Em 2025, surpreendeu com uma pauta bastante progressista, sobre a cultura LGBTQIA+.
Nos últimos anos, Milton Leite tem se dedicado também a ampliar sua influência no futebol. Em 2023, concorreu à vice-presidência do Corinthians, na chapa de André Negão. Eles acabaram derrotados. “Perdemos a eleição e foi uma das poucas derrotas que tive dentro dessa disputa”, disse o político ao Roda Viva.
No Grajaú, seu reduto eleitoral, ampliou a participação no futebol com a criação do Esporte Clube Terceiro Milênio SAF, que já disputa competições da Federação Paulista nas categorias de base. Também conseguiu, junto à prefeitura, a reforma do CDC Maria Felizarda, um clube da comunidade que agora tem campo “padrão Fifa” e arquibancadas.

