Especialistas apontam falta de medidas concretas em temas como soberania e destacam impacto das escolhas externas na economia brasileira

Planos de governo de candidatos abordam de maneira 'vaga' e 'genérica' relações internacionais, dizem especialistas
Planos de governo de candidatos abordam de maneira 'vaga' e 'genérica' relações internacionais, dizem especialistas · Imagem: Source: www.terra.com.br

23 set 2026 - 04h58

Planos de governo de candidatos abordam de maneira 'vaga' e 'genérica' relações internacionais, dizem especialistas
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Um outdoor com a imagem do primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, exposto ao lado de bandeiras de vários países, antes da próxima Cúpula do Brics em Nova Délhi, Índia, em 10 de setembro de 2026. REUTERS/Bhawika Chhabra
Um outdoor com a imagem do primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, exposto ao lado de bandeiras de vários países, antes da próxima Cúpula do Brics em Nova Délhi, Índia, em 10 de setembro de 2026. REUTERS/Bhawika Chhabra · Imagem: Um outdoor com a imagem do primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, exposto ao lado de bandeiras de vários países, antes da próxima Cúpula do Brics em Nova Délhi, Índia, em 10 de setembro de 2026. REUTERS/Bhawika Chhabra Foto: Reuters

- Por: Vanessa Ortiz

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Planos de governo de candidatos abordam de maneira 'vaga' e 'genérica' relações internacionais, dizem especialistas:

Imagem da matéria: Planos de governo de candidatos abordam de maneira 'vaga' e 'genérica' relações internacionais, dizem especialistas
Imagem da matéria: Planos de governo de candidatos abordam de maneira 'vaga' e 'genérica' relações internacionais, dizem especialistas · Imagem: Donald Trump Foto: Roberto Schmidt / Getty Images

A política externa vem alcançando um protagonismo talvez nunca antes visto na história do Brasil quando se trata de eleições presidenciais. Embora haja esse destaque em 2026, muito por causa das sanções empregadas pelos Estados Unidos contra o País, os candidatos à Presidência abordam de maneira vaga e genérica o tema, na visão dos especialistas ouvidos pelo Terra.

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- Essa reportagem faz parte da série O Brasil Que Eles Querem, que vai destrinchar os planos de governo dos candidatos à Presidência sobre Tecnologia, Educação, Economia, Saúde, Cultura, Segurança, Diversidade, Relações Internacionais, Meio Ambiente e Esporte

Cartaz sobre cúpula dos Brics é visto pela janela de ônibus em Nova Délhi, Índia 8 de setembro de 2026 REUTERS/Bhawika Chhabra
Cartaz sobre cúpula dos Brics é visto pela janela de ônibus em Nova Délhi, Índia 8 de setembro de 2026 REUTERS/Bhawika Chhabra · Imagem: Cartaz sobre cúpula dos Brics é visto pela janela de ônibus em Nova Délhi, Índia 8 de setembro de 2026 REUTERS/Bhawika Chhabra Foto: Reuters

Termos como “soberania”, “autonomia”, “independência” e “abertura de mercados” aparecem nos programas, mas nem sempre são acompanhados de medidas concretas que permitam visualizar as ideias na prática.

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“Especialmente os planos de Lula e de Flávio Bolsonaro estão sendo vagos em vários temas que dominam o noticiário e acabam omitindo questões que são muito importantes como União Europeia, Ucrânia e Oriente Médio”, aponta João Alfredo Lopes Nyegray, mestre e doutor em Internacionalização e Estratégia e professor da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC- PR), como lacunas nas propostas.

Trump e Xi Jinping durante encontro nesta quarta-feira (29)
Trump e Xi Jinping durante encontro nesta quarta-feira (29) · Imagem: Trump e Xi Jinping durante encontro nesta quarta-feira (29) Foto: Andrew Harnik / Getty Images

Um outdoor com a imagem do primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, exposto ao lado de bandeiras de vários países, antes da próxima Cúpula do Brics em Nova Délhi, Índia, em 10 de setembro de 2026. REUTERS/Bhawika Chhabra

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Foto: Reuters

O presidente da China, Xi Jinping (C), o líder da Coreia do Norte, Kim Jong Un (2º D) e o presidente da Rússia, Vladimir Putin (2º E) chegam para uma recepção no Grande Salão do Povo, após um desfile militar que marca o 80º aniversário da vitória sobre o Japão e o fim da Segunda Guerra Mundial, em Pequim, em 3 de setembro de 2025.
O presidente da China, Xi Jinping (C), o líder da Coreia do Norte, Kim Jong Un (2º D) e o presidente da Rússia, Vladimir Putin (2º E) chegam para uma recepção no Grande Salão do Povo, após um desfile militar que marca o 80º aniversário da vitória sobre o Japão e o fim da Segunda Guerra Mundial, em Pequim, em 3 de setembro de 2025. · Imagem: O presidente da China, Xi Jinping (C), o líder da Coreia do Norte, Kim Jong Un (2º D) e o presidente da Rússia, Vladimir Putin (2º E) chegam para uma recepção no Grande Salão do Povo, após um desfile militar que marca o 80º aniversário da vitória sobre o Japão e o fim da Segunda Guerra Mundial, em Pequim, em 3 de setembro de 2025. Foto: Sergey Bobylev / RIA Novosti/Anadolu / Getty Images

Já Vinicius Guilherme Rodrigues Vieira, doutor em Relações Internacionais e professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV), observa que apesar das diferenças ideológicas, todos buscam ‘vender’ estratégias para superar o baixo crescimento econômico.

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Planos de governo de candidatos abordam de maneira 'vaga' e 'genérica' relações internacionais, dizem especialistas · Imagem: Source: www.terra.com.br

“O conselho que acho que um especialista minimamente informado daria a um candidato e a um eleitor é: sempre pensar se aquela estratégia desenhada, faz sentido à luz do estado do mundo, do estágio em que o mundo se encontra”, reflete.

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ONU divulga relatório com 64 NDCs propostas por diversos países para reduzir as emissões de gases de efeito estufa até 2030 · Imagem: ONU divulga relatório com 64 NDCs propostas por diversos países para reduzir as emissões de gases de efeito estufa até 2030 Foto: Bruce Yuanyue Bi/Getty Images

Soberania e independência

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Donald Trump

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Foto: Roberto Schmidt / Getty Images

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Quase todos os políticos levantam a bandeira de defesa da soberania, cada um à sua maneira. Enquanto Luiz Inácio Lula da Silva (PT) defende a independência, sem subordinação estratégica e alinhamentos automáticos, Flávio Bolsonaro (PL) prega o pragmatismo na diplomacia, sem ideologia.

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Já Ronaldo Caiado (PSD), por exemplo, quer priorizar a consolidação do acordo Mercosul-União Europeia e a expansão da presença brasileira na Ásia, África, Estados Unidos e no Oriente Médio. Outros candidatos ainda criticam a “submissão” aos Estados Unidos e China, defendendo uma ruptura. “Soberania acaba sendo um termo muito usado, mas pouquíssimo compreendido”, argumenta Nyegray.

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Como é possível observar, o termo aparece para alguns como autonomia e, para outros, como ruptura. O especialista pontua que ser autônomo dentro da política externa é diversificar parceiros, usar reciprocidade, resistir à coesão sem romper com ninguém, um caminho mais pacífico e economicamente mais viável.

Pesquisa Quaest: Lula tem 37% das intenções de voto no 1º turno, Flávio Bolsonaro, 33% Foto: PETRA MAFALDA/MAFALDA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO e ISABELA DA SILVA/PERA PHOTO PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO
Pesquisa Quaest: Lula tem 37% das intenções de voto no 1º turno, Flávio Bolsonaro, 33% Foto: PETRA MAFALDA/MAFALDA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO e ISABELA DA SILVA/PERA PHOTO PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO · Imagem: Source: www.terra.com.br

A ruptura, por sua vez, em um país como o Brasil, tende a não funcionar e ser bastante custoso, pois nenhum país sobrevive sozinho. Nyegray usa como exemplo as exportações do Brasil para os Estados Unidos, que recuaram quase 10% esse ano, mas para a China e a Índia houve alta. “Simplesmente virar as costas para um grande comprador, é, nada mais, nada menos do que uma troca de dependência.”

Os candidatos Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) Foto: Allison Sales/NurPhoto via Getty Images Mateus Bonomi/Anadolu via Getty Images
Os candidatos Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) Foto: Allison Sales/NurPhoto via Getty Images Mateus Bonomi/Anadolu via Getty Images · Imagem: Source: www.terra.com.br

Deixar ou ficar no Brics, romper ou manter relações com os EUA e a China

Marina Silva Foto: Ana Paula Almeida/Terra
Marina Silva Foto: Ana Paula Almeida/Terra · Imagem: Source: www.terra.com.br

Cartaz sobre cúpula dos Brics é visto pela janela de ônibus em Nova Délhi, Índia 8 de setembro de 2026 REUTERS/Bhawika Chhabra

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Jair Renan Bolsonaro pede para não ser descontado por falta, e vereador se exalta #shorts
Jair Renan Bolsonaro pede para não ser descontado por falta, e vereador se exalta #shorts · Imagem: Source: www.terra.com.br

Outro ponto em comum, entre alguns candidatos, como Lula e Caiado, é o fortalecimento no Brics, enquanto Romeu Zema (Novo) defende a saída do Brasil da aliança Sul Global. Renan Santos, por sua vez, prega uma “estratégia pragmática” dentro do bloco, evitando ser subordinado à China.

Acidente aéreo, discurso na ONU e investigação do TSE movimentam a corrida eleitoral
Acidente aéreo, discurso na ONU e investigação do TSE movimentam a corrida eleitoral · Imagem: Source: www.terra.com.br

“Fazer parte dos Brics não significa em hipótese alguma estar vendido, como a extrema direita às vezes faz crer, para a China”, diz Vieira ao citar o exemplo da Índia, governado por Narendra Modi, um nacionalista hindu, cujo governo tem muitas similaridades com a extrema direita brasileira, que se fundamenta na religiosidade.

Flávio Bolsonaro diz que vai indicar cinco ministros ao STF se for eleito: 'Acabar com esse tormento'
Flávio Bolsonaro diz que vai indicar cinco ministros ao STF se for eleito: 'Acabar com esse tormento' · Imagem: Source: www.terra.com.br

O especialista afirma que vale à pena o País integrá-lo, muito embora não seja um bloco coeso, em virtude de as nações integrantes serem muito heterogêneas, mas que buscam um ponto comum: mais participação na política internacional. Essa é uma função essencial, do ponto de vista do professor, em função do declínio do multilateralismo.

Pesquisa Quaest: Lula tem 37% das intenções de voto no 1º turno, Flávio Bolsonaro, 33% Foto: PETRA MAFALDA/MAFALDA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO e ISABELA DA SILVA/PERA PHOTO PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO
Pesquisa Quaest: Lula tem 37% das intenções de voto no 1º turno, Flávio Bolsonaro, 33% Foto: PETRA MAFALDA/MAFALDA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO e ISABELA DA SILVA/PERA PHOTO PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO · Imagem: Source: www.terra.com.br

“A tendência é que países com perfil do Brasil tenham de se esforçar muito mais do que nos últimos 80 anos e particularmente desde o fim da Guerra Fria para se fazerem ouvidos no cenário internacional”, explica.

Os candidatos Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) Foto: Allison Sales/NurPhoto via Getty Images Mateus Bonomi/Anadolu via Getty Images
Os candidatos Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) Foto: Allison Sales/NurPhoto via Getty Images Mateus Bonomi/Anadolu via Getty Images · Imagem: Source: www.terra.com.br

O professor ainda reflete como ficariam as relações econômicas entre Brasil e China, caso saíssemos do bloco, como defende parte da extrema-direita, cuja base é formada pelo agro, que, por sua vez, tem como principal mercado o país da Ásia Oriental. “É algo que vai contra os próprios interesses da base social, que gostemos ou não, sustenta o movimento de extrema direita no Brasil”, argumenta, sustentando que a medida é um erro.

Marina Silva Foto: Ana Paula Almeida/Terra
Marina Silva Foto: Ana Paula Almeida/Terra · Imagem: Source: www.terra.com.br

Trump e Xi Jinping durante encontro nesta quarta-feira (29)

Foto: Andrew Harnik / Getty Images

Nyegray concorda que a saída significa um enfraquecimento comercial do Brasil, assim como sair do Mercosul. Outro ponto que pode enfraquecer é uma aproximação excessiva com alguma nação, como China, em contraponto aos Estados Unidos. “Pode simplesmente ser uma troca de dependência que vai produzir custos comerciais e diplomáticos. Toda proposta tem que reconhecer aquilo que pode perder e não apenas prometer ganhos.|

Propostas polêmicas

Alguns planos de governo trazem propostas polêmicas e também pouco viáveis, como Renan Santos, que defende a necessidade de soberania militar e nuclear. Ele chegou a dizer durante uma sabatina na TV Globo que o País só será respeitado globalmente se possuir uma bomba atômica.

Os especialistas apontam que, além da Constituição não permitir o uso ou a confecção de bomba atômica, o Brasil assinou o Tratado de Não-Proliferação Nuclear, em 1998, no qual assumiu o compromisso com o resto do mundo de não desenvolver armas do tipo. Antes disso ainda, em 1997, foi criado um acordo bilateral com a Argentina, dentro da Agência Brasil-Argentina de Contabilidade Nuclear (ABAC), que verifica se as instalações nucleares de ambos os lados da fronteira só servem para fins pacíficos.

O presidente da China, Xi Jinping (C), o líder da Coreia do Norte, Kim Jong Un (2º D) e o presidente da Rússia, Vladimir Putin (2º E) chegam para uma recepção no Grande Salão do Povo, após um desfile militar que marca o 80º aniversário da vitória sobre o Japão e o fim da Segunda Guerra Mundial, em Pequim, em 3 de setembro de 2025.

Foto: Sergey Bobylev / RIA Novosti/Anadolu / Getty Images

“Teríamos um ônus muito grande interno para convencer a sociedade dessa mudança constitucional, que requer ali 2/3 de votos. Teríamos problemas com a Argentina e nós já temos uma relação muito ruim com a Argentina em função dessa proximidade entre Milei e Trump e acho que não necessariamente essa relação vai melhorar caso elejamos um governante à direita”, explica Vieira ao dizer que o presidente argentino poderia ter ciúmes, caso Flávio Bolsonaro fosse eleito, visto que Jair Milei quer “ser o grande interlocutor da direita da América Latina” junto ao representante norte-americano.

Quanto aos influenciadores diplomatas, proposta do Escritor Augusto Cury (Avante) que também levantou muitos debates nas redes sociais, Nyegray diz que pode funcionar, caso seja feito da maneira que o candidato propõe, que é de tornar treinar diplomatas para melhorar a imagem do Brasil.

“Esse diagnóstico, por mais que no início tenha tido um choque inicial, acaba tendo um fundamento, porque diplomacia contemporânea não acontece apenas em reuniões reservadas entre governos, mas em redes, em vídeos, em campanhas culturais”, diz. Segundo o professor, embora o Brasil tenha uma enorme capacidade cultural, turística e econômica, há essa fragilidade em mostrar essa narrativa para outros países.

Vieira complementa que essa estratégia foi adotada em outras nações, como a África do Sul e a Turquia, e foram bem sucedidas.

ONU divulga relatório com 64 NDCs propostas por diversos países para reduzir as emissões de gases de efeito estufa até 2030

Foto: Bruce Yuanyue Bi/Getty Images

Mas, afinal, como a política externa pode impactar no nosso cotidiano?

O assunto, por si só, é complexo, mas na prática, as relações de política externa com outros povos podem moldar o nosso cotidiano pois influenciam diretamente na economia, no acesso aos produtos, na segurança e até mesmo nos direitos fundamentais. Ou seja, o pãozinho pode chegar à sua mesa mais caro, assim como a gasolina, caso o câmbio fique mais alto, já que o Brasil é um dos maiores compradores de trigo e de combustíveis, por exemplo.

“Política externa influencia dólar, influencia combustíveis, fertilizantes, alimentos, influencia emprego, porque afinal de contas envolve exportações e envolve investimentos. Essa ligação entre diplomacia e efeitos econômicos reais, talvez seja uma das mais difíceis, mas é que o eleitor deve efetivamente procurar”, finaliza Nyegray.

Fonte: Portal Terra

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