Política / Eleições 2026

‘Sociedades estão imediatistas, e frustração castiga governos’, avalia espanhol que fez campanhas vitoriosas na América Latina
‘Sociedades estão imediatistas, e frustração castiga governos’, avalia espanhol que fez campanhas vitoriosas na América Latina · Imagem: Source: oglobo.globo.com

Segundo entrevistado da série 'Brasil visto de fora', Antoni Gutiérrez-Rubí vê Lula inserido em fenômeno global que desafia candidatos à reeleição, motivado por eleitores 'ansiosos'

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O estrategista espanhol Antoni Gutiérrez-Rubí — Foto: Editoria de Arte

Depois de vencer em 2022 como opositor de Jair Bolsonaro (PL), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) enfrenta agora, na tentativa de reeleição, o fenômeno contemporâneo conhecido como “a maldição do incumbente”. A explicação para a sequência de vitórias de candidatos de oposição mundo afora, na visão do estrategista espanhol Antoni Gutiérrez-Rubí, passa pela ansiedade e o imediatismo que hoje dominam as sociedades de diferentes países.

- Entrevista: 'Nunca funciona dizer que a economia vai bem se o eleitor não sente isso', aconselha Karl Rove, arquiteto das vitórias de Bush

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Os eleitores estão exigentes, diz ele, e a frustração com a falta de resultados rápidos castiga governantes que tentam se reeleger ou emplacar aliados. Contribui para isso a lógica acelerada das redes sociais, com algoritmos que “estimulam a indignação”.

Fundador da consultoria Ideograma, Gutiérrez-Rubí foi marqueteiro de diversas campanhas de destaque na América Latina nos últimos anos. Coordenou a empreitada vitoriosa de Gustavo Petro na Colômbia em 2022, quando a esquerda chegou ao poder pela primeira vez no país, participou como consultor da eleição de Claudia Sheinbaum no México em 2024 e tem no currículo trabalhos para o peronismo na Argentina.

O espanhol chegou a ser alvo de uma ameaça de expulsão do país por parte do presidente argentino, Javier Milei, no ano passado, com base em supostos problemas de documentação. Milei ficou irritado com o fato de Jorge Macri, chefe do governo de Buenos Aires e primo do ex-presidente de centro-direita Mauricio Macri, ter contratado o consultor — que havia trabalhado para seu adversário peronista, Sergio Massa, na campanha de 2023.

Gutiérrez-Rubí é o segundo entrevistado da série “Brasil visto de fora”, que reúne conversas com estrategistas internacionais sobre a eleição brasileira e tendências vistas aqui que também estão presentes em outros países, como a dificuldade de quem está no cargo e a presença de uma direita radicalizada. O primeiro foi o americano Karl Rove, arquiteto das vitórias do republicano George W. Bush nos Estados Unidos.

O senhor trabalhou em campanhas vitoriosas da esquerda na América Latina, algumas de oposição. Lula foi vitorioso como opositor em 2022, e hoje enfrenta dificuldade para se reeleger. Ficou mais fácil fazer uma campanha de oposição do que uma de continuidade?

É um sinal dos tempos. Antes, as disputas eram entre campo progressista e campo conservador, esquerda e direita. Especialmente pós-pandemia, o que estamos vendo é que os governistas têm perdido, e os opositores, ganhado. Há uma nova clivagem que é governismo versus oposição. A segunda explicação possível é que as sociedades latino-americanas se tornaram muito mais exigentes e não concedem tempo a seus governos. O desânimo, a desesperança e a frustração avançam muito rapidamente, e a melhor maneira de expressar isso é mudando o governo. Há sociedades mais ansiosas, agitadas e exigentes, que usam o voto para castigar, não para premiar.

Como a lógica das redes alimenta isso?

A terceira explicação é o imediatismo. Vivemos acelerados. O impacto disso nas políticas públicas é devastador. Planejar uma grande reforma, por exemplo, exige prazos mais longos que os de um mandato. Quando a sociedade vive uma realidade digital em que tudo é imediato, ante uma realidade pública lenta e que às vezes não consegue seus objetivos, produz-se uma frustração, e o governo é castigado.

Com base em seu histórico de trabalhos para o peronismo, diria que esse grupo político e o lulismo têm dificuldade para se adaptar às mudanças no mercado de trabalho, com maior informalidade?

Creio que é um desafio para todas as forças políticas compreender a nova economia, o impacto das tecnologias. Com a inteligência artificial no mercado de trabalho, vai ser um desafio maior ainda. Não tenho certeza sobre a avaliação de que a direita está mais preparada. É um desafio para todos repensar o que é trabalho, salário, emprego. Os debates são de um nível de profundidade que vai obrigar todos, e talvez mais ainda aqueles que sempre se atribuíram um papel de representação das classes populares, a refletir mais a fundo e repensar convicções.

Bolsonaro foi condenado por tentativa de golpe de Estado e, um ano depois, um de seus filhos tem possibilidades reais de ser presidente da República. Isso é sintoma de quê?

Certamente revela que, muito além do destino judicial do ex-presidente, o bolsonarismo existe e representa uma parte muito importante dos brasileiros. Da mesma maneira que Cristina Kirchner está em prisão domiciliar e o kirchnerismo existe. Os eleitores sentem vínculos especiais com aquelas pessoas que representam suas ideias de mundo. Não é que perdoem ou justifiquem a situação judicial dos líderes, mas também não se rompe o vínculo com essas ideias apenas pela situação legal deles. Os vínculos são profundos.

Aqui estamos com uma situação inédita, que é Lula e Flávio terem mais de 50% de rejeição em alguns institutos de pesquisa. A eleição acaba sendo um duelo de rejeições?

Também é uma característica destes tempos. Vemos cada vez mais sociedades polarizadas, em que as vitórias acontecem por escassas margens. Foi na Colômbia há pouco. As posições intermediárias acabam sucumbindo. Sociedades muito polarizadas têm consequências democráticas e institucionais. Quando a vitória é muito ajustada, o reconhecimento do derrotado às vezes é complexo — podem se produzir alegações, dúvidas, suspeitas sobre o sistema e os tribunais eleitorais. Há dificuldade para o perdedor reconhecer o resultado nessas situações. A segunda grande consequência é que você pode ganhar de 50% mais um voto, mas isso nem sempre se traduz no resultado para o Legislativo. A governabilidade acaba ficando muito complexa.

Pensando nessa margem muito apertada, que é a tendência aqui outra vez, em que temas se concentraria se trabalhasse para Lula e para Flávio daqui até a eleição?

Nos temas que têm a ver com a vida cotidiana, que preocupam os eleitores. Sobretudo para aqueles eleitores indecisos, que não estão nos núcleos duros dos partidos. Que não são “anti”, e sim que querem governos que resolvam seus problemas.

Como avalia o impacto da insatisfação com o Poder Judiciário e com o sistema em geral em uma eleição como a brasileira?

É um pouco imprevisível, mas creio que os eleitores podem pensar que o sistema está quebrado, que não funciona bem. Assim, a tentação de sacudir o sistema, de dar um “golpe” no sistema, é real. Acaba sendo pior para quem está no sistema, claro.

Desde que o senhor começou a trabalhar na região, a direita se tornou muito mais radical do que era. Que fatores levaram a esse processo?

Houve um giro global rumo a posições mais conservadoras. Ou seja, a geopolítica global e as tendências políticas internacionais afetam mais que nunca a região, e as direitas latino-americanas fazem parte dessa mudança. Essas direitas estão em uma luta interna. Há uma direita liberal, mais convencional, e as novas. Nessa luta, parece que as novas direitas estão ganhando e radicalizando todo o bloco. Isso está acontecendo em todo o mundo, como ocorreu com o Partido Republicano, no qual ganharam as correntes do Maga (Make America Great Again), ou na Espanha, com Vox (extrema-direita) versus PP (centro-direita tradicional).

Voltando a falar sobre redes sociais: elas ajudam a impulsionar a forma de atuar dessas novas direitas, que costumam ser bem estridentes?

Essas novas direitas não podem ser entendidas sem pensar no ambiente digital que as promove, as plataformas, os algoritmos. O próprio debate digital polarizado faz com que núcleos duros, ou eleitores e ativistas digitais mais radicais, concentrem a conversa: 10% das pessoas representam 90% do tráfego. Há uma sobrerrepresentação favorecida pelos algoritmos, mas também uma sobrerrepresentação dos setores mais radicais dentro de cada bloco político. O algoritmo favorece mais as mensagens de reação e estimula a indignação. É um ecossistema favorável à rejeição.

Na Europa, o discurso do medo está muito concentrado na questão da imigração. Aqui, na segurança pública, no crime organizado. A direita oferece respostas mais atraentes a isso, mesmo que não sejam soluções perenes?

As direitas encontraram na luta contra a imigração um problema muito fértil, porque o medo é muito rentável politicamente. Quando você estimula o medo, abre espaço para encontrar um atalho democrático, um caminho “rápido” para resolver os problemas. É atraente para os eleitores, e todos sabemos que a maioria dos grandes problemas, seja a imigração, a segurança, as mudanças climáticas, não são de fácil resolução. São complexos e lentos. Estimular o medo e respostas rápidas é um dos grandes feitos dessas direitas eleitoralmente.

Vimos aqui candidatos mencionando El Salvador como inspiração, por exemplo.

Creio que uma das grandes tarefas dos democratas, tanto de esquerda como de direita, conservadores ou progressistas, é explicar às pessoas que os problemas complexos precisam de tempo e soluções complexas. Que não há respostas fáceis nem rápidas. E que propor respostas fáceis e rápidas, de alguma maneira, é uma forma de enganar os eleitores.

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