Matheus Leitão

Imagem colorida mostra a igreja de Santa Edwiges, em Peruíbe, no litoral de São Paulo, antes e depois de uma forte tempestade que destruiu o local. Apenas a imagem de uma santa sobreviveu às fortes chuvas - Metrópoles
Imagem colorida mostra a igreja de Santa Edwiges, em Peruíbe, no litoral de São Paulo, antes e depois de uma forte tempestade que destruiu o local. Apenas a imagem de uma santa sobreviveu às fortes chuvas - Metrópoles · Imagem: Arquivo pessoal

Em um país com 83 milhões de inadimplentes, Lula e Flávio prometem limpar o nome do eleitor a nove dias do 2º turno

Dia de Santa Edwiges, padroeira dos endividados, cai em plena eleição
Dia de Santa Edwiges, padroeira dos endividados, cai em plena eleição · Imagem: Source: www.metropoles.com

Matheus Leitão

16/10/2026 09:00

Arquivo pessoal

No Brasil, onde já virou tradição discutir fé nas eleições, vale lembrar ao eleitor de uma santa muito querida pelos católicos e ligada ao tema que mais pesa no orçamento das famílias. Santa Edwiges é celebrada pela Igreja em 16 de outubro e é venerada como protetora dos pobres e dos endividados. Em 2026, sua festa cai entre o primeiro e o segundo turno, num momento em que a dívida das famílias ocupa o centro do debate político.

Em todo o país, o dia 16 de outubro reúne fiéis em missas, novenas e procissões nas paróquias dedicadas a ela. Muitos chegam com um pedido bem concreto, o de conseguir pagar as contas e recomeçar. As orações pedem que não falte o pão de cada dia, que a família tenha dignidade e que o devoto encontre equilíbrio e discernimento para organizar a vida financeira. A invocação mais conhecida é simples. “Santa Edwiges, rogai por nós.”

Essa devoção tem um traço muito brasileiro. Foi aqui que Santa Edwiges ganhou força como intercessora de quem enfrenta dificuldades financeiras, e sua imagem passou a ser procurada sobretudo em tempos de crise, desemprego e aperto no orçamento. A explicação para essa ligação está na própria história da santa, que viveu há mais de oito séculos e do outro lado do oceano.

Edwiges nasceu por volta de 1174, numa família nobre da Baviera, e se casou ainda jovem com Henrique, duque da Silésia, região que atualmente pertence à Polônia. Mesmo vivendo na corte, dedicou a vida aos mais pobres. Visitava famílias em situação de miséria, fundou hospitais, escolas e conventos para acolher viúvas e órfãos e ajudava lavradores e presos a quitar suas dívidas. Segundo a tradição, usava os bens do próprio dote para libertar devedores da prisão, numa época em que a dívida podia levar à cadeia.

Depois de perder o marido e filhos, recolheu-se ao mosteiro de Trzebnica, onde viveu em oração e penitência até a morte, em 15 de outubro de 1243. Sua fama de santidade se espalhou rapidamente, e muitos fiéis passaram a visitar seu túmulo pedindo sua intercessão. Em 1267, o papa Clemente IV a canonizou. Nas imagens, Santa Edwiges costuma aparecer segurando uma pequena igreja, sinal de sua dedicação à fé, e um par de sapatos, lembrança do hábito de caminhar descalça por penitência. Na Europa, ela é venerada principalmente como padroeira da Silésia.

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A realidade brasileira ajuda a entender por que a devoção cresce por aqui. Em abril de 2026, a Serasa registrou 83,3 milhões de brasileiros inadimplentes, o equivalente a 50,81% da população adulta. Muitos convivem com a dívida há anos, já que 42% dos inadimplentes de 2026 também estavam com o nome restrito em 2016.

O tema chegou às propostas dos dois candidatos do segundo turno. Lula reconheceu que as etapas anteriores do Desenrola não foram suficientes e promete uma nova fase, com a compra de dívidas com mais de dois anos de atraso e valores de até R$ 4 mil, oferecendo descontos que podem superar 90%. Flávio Bolsonaro propõe que o governo compre carteiras de dívidas em atraso e as refinancie pela Caixa, com juros menores, prazos mais longos e seis meses de carência para pessoas físicas.

São caminhos diferentes, que caberá ao eleitor avaliar. A vida de Santa Edwiges, porém, deixa uma lição que vai além de qualquer programa de governo. Para ela, aliviar a dívida do próximo era um gesto de caridade, feito com os próprios bens e com o desejo sincero de devolver ao outro a chance de recomeçar. Em 16 de outubro, milhões de brasileiros rezam por esse recomeço. Em 25 de outubro, cada um decide nas urnas qual caminho considera mais justo.